José Guilherme Merquior

(22.04.1941 - 07.01.1991)

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Friday, 06 July 2007

 

A lepra lingüística*

 

 José Guilherme Merquior


*Publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 4 de janeiro de 1983.

 

Outro dia um locutor da rádio “cultural” de Brasília apresentou uma peça de música barroca dizendo que seu título era “A Rainha de Sheba” – pronunciando, naturalmente, “xeba”. Poucos meses antes, o público da televisão assistiu a um filme dublado em que Rex Harrison, fazendo o papel do papa “Julius” II, voltava de uma viagem à “Rumânia”... e enquanto isso, uma outra película dublada,  se não me engano uma história de James Bond, classificava de “feudos” sangrentos os conflitos entre duas organizações mafiosas. Alguém precisa realmente cuidar um pouco mais da nossa pobre língua – nosso principal instrumento de pensar e de viver – e impedir que semelhantes absurdos tenham o livre curso que vêm tendo, aos montes, em nossos meios de comunicação de massa.
É claro que a tarefa não é fácil. Afinal, vivemos num país onde mesmo as pessoas sofisticadas acham feio dizer “Genebra” e insistem em usar “Genève”, embora massacrando, sem querer, bem entendido (é a punição dos esnobes), a pronúncia francesa. E acham muita graça na generalização de mulambos sintáticos como “Você receberá tudo que tem direito” ou “O esforço a que o candidato se propõe” ou em contra-sensos semânticos do tipo “o comitê organizador da feira preparou o evento”. Ninguém se incomoda muito com o estado da língua, e menos que todos os milhares e milhares de bárbaros e solecistas que ganham, cada ano, diplomas em profusão. A gente chega até a sentir certo complexo de culpa, e a tentação de indagar se não está sendo muito “elitista” com esse tipo de exigência...
Na minha infância, porém, como na minha adolescência, qualquer ex-colegial, como suponho o seja o nosso locutor radiofônico, sabia que “Queen of Sheba” é “Rainha de Sabá” – ao passo que ele, coitado, só sabe (e já é muito) que “queen” é “rainha”. O papa era conhecido como Júlio, não como “Julius”, e nunca foi à Rumânia, ou, melhor dito, Romênia e sim à Romanha (Romagna), região do centro-leste da Itália. Em suma, cada pessoa medianamente educada que lidava com o inglês ou o francês conhecia razoavelmente duas coisas: o português, e a chamada cultura geral, aquela tal que “fica quando se esquece tudo mais” e serve ao menos para que seu detentor não passe vergonha. Quase nulo era o risco, há apenas vinte anos, de que um tradutor vertesse “laissez-faire” por “deixe estar” – sim, leitor, não esfregue os olhos: “deixe estar”, tal como se pode ler no volume “Raymond Aron na UnB” – uma universidade que publica anualmente uma verdadeira pletora de traduções, mas se obstina em considerar de somenos garantir um nível mínimo de correção lingüística a seus textos.
Nem se veja nessa crítica um puro lamento “social” – algo assim como o constante sobressalto de nossas elites mais antigas ante as sucessivas ondas de “parvenus” sem maneiras, da “turma que toma sopa de garfo”, como se diz, graficamente, no Sul. A maior vítima da nossa tragédia em matéria de cultura lingüística não é a elegância do falar – é, pura e simplesmente, a eficiência da comunicação. Pouquíssimos os que ainda sabem fazer um relato (quanto mais um relatório) decente, objetivo e articulado; pois a ruína da sintaxe acompanha a penúria do léxico. Nas empresas, nos governos, voltamos – em plena era da alfabetização maciça – ao princípio da Renascença, quando os serviços dos raríssimos letrados profanos (os humanistas) eram disputados como talentos ultravasqueiros... Quem ignora que, no Rio de Janeiro, prosperam “fábricas” de teses de pós-graduação, encomendadas a peso de ouro por mestrandos e doutorandos semi-analfabetos? E já há casos de chefes de departamentos de letras ainda rigorosamente virgens de qualquer comércio mais íntimo com a gramática da regência e da concordância. Um deles, emérito lacaneta.
A mais insigne monstruosidade perpetrada contra a educação brasileira – o vestibular unificado, sem redação – está na raiz da nossa lepra lingüística. Mas é preciso frisar que o mal reside na cultura (e no sistema educacional) e não no próprio idioma. Como sistema lingüístico, o português continua a demonstrar notável aptidão para o enriquecimento e a renovação, conforme vem registrando o Aurélio e vêm notando destacados estudiosos nacionais e estrangeiros, a começar (do lado de cá) por um Celso Cunha ou um Antonio Houaiss. A língua é rica e plástica; a fala (no sentido de Saussure, e portanto, tanto oral quanto escrita) é que anda pobre e trôpega. De resto o fenômeno sofre a inevitável refração imposta pela amplitude e variedade do Brasil, capaz de fazer com que a gente pobre de São Luís se expresse, em média, infinitamente melhor do que a juventude burguesa de Copacabana ou Belo Horizonte. Compete a todos nós concitar os poderes públicos e as autoridades do ensino a pôr cobro a essa situação alarmante, em que a práxis cada vez mais barbarizada do português ameaça relegar a opulência e cultura da nossa linguagem ao estado de uma “reserva” aristocrática – espécie de latim do espírito, sem nenhuma correspondência prática no cotidiano da vida social.

 

        

posted by: BlogMerquior at 21:08 | link | |

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